Toda cidade com um sistema de transporte um pouco mais sofisticado tem quatro tipos de linhas:
1) as radiais, que ligam bairro a centro;
2) as diametrais, que ligam bairro a bairro passando pelo centro;
3) as transversais (ou interbairros), que ligam bairro a bairro sem passar pelo centro;
4) as locais, que ligam bairros a um subcentro mais próximo.
Em qualquer sistema, é comum, por razões históricas, a predominância de linhas radiais sobre as demais. A operação das diametrais começa a ficar difícil quando o trânsito do centro fica saturado. As locais são fruto muitas vezes de incursões do transporte "alternativo". Já as transversais são relegadas a segundo plano. É assim em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte.
Em Brasília, é um pouco pior.
Tirando as linhas radiais, que são muitas, mas com frotas pequenas, há realmente poucas opções.
As poucas linhas diametrais são tímidas, limitando-se a ir ao Terminal Asa Sul quando vêm da Saída Norte ou ao Terminal Asa Norte quando vêm da Saída Sul. Ambos os terminais ainda são dentro do Plano Piloto, onde fica a Zona Central. Não existe, por exemplo, uma linha Sobradinho - Guará, ou São Sebastião - Taguatinga.
As linhas locais são praticamente restritas às que vão a Taguatinga Centro, praticamente o único subcentro que existe no Distrito Federal.
Faltam muitas linhas transversais, principalmente em trajetos curtos. Depois perguntam por que o brasiliense anda tanto de carro. O ônibus que faz o trajeto da 402 Norte à 502 Sul (136.7) passa de 45 em 45 minutos para um trajeto que não demoraria 15 minutos. Como faço para ir de Águas Claras ao vizinho Guará II? Se houvesse integração, ok, pelo menos no horário do metrô. Mas e se eu não quiser pagar R$ 5 pelo trajeto de 6 km? Mais um carro para congestionar a EPTG.
E há casos piores, que só se resolvem com novas linhas mesmo. Como fazer para ir da 608 Norte (ou Sul) à 708 Norte (ou Sul)? São 2 km a pé ou 9 km de ônibus -- escolha ingrata, não? Do Sudoeste para o Aeroporto? De carro, 12 km; de ônibus, 24. Da QI 9, no Lago Sul, para a Esplanada? Para a elite motorizada, 6 km; para o resto de nós, 15.
Eu sei, eu sei, estamos todos esperando o Brasília Integrada. Vamos ver se ele resolverá o problema. Se as linhas forem só as que estão aí, a resposta é não.
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608 Norte a 708 Norte
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Sudoeste - Aeroporto: de carro, fácil.
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Sudoeste - Aeroporto: já de ônibus...
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QI 9 - Esplanada: a ponte é só pra quem tem carro.
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QI 9 - Esplanada: quem não tem, dá a volta.
16 de fevereiro de 2009
21 de janeiro de 2009
O poder do constrangimento
Em diversos blogs de pedestres e ciclistas, eu vejo que as pessoas se sentem impotentes diante de uma máquina de 2 toneladas na sua frente. E com razão. Porém, essa mesma máquina é operada por um ser humano. Mais razão ainda para ter medo? Sim e não.
Sim porque os seres humanos falham. Quando um motorista falha, quase sempre, alguém acaba ferido ou morto. Não é à toa que nos filmes futuristas, os veículos são conduzidos por um sistema automático qualquer. A presença de um ser humano ali é um risco constante.
Por outro lado, seres humanos (até mesmo motoristas) têm sentimentos tais como compaixão, medo e vergonha. E isso, de vez em quando, pode ser útil.
Ontem, eu estava desembarcando do ônibus que vai do Metrô Tatuapé ao Aeroporto de Guarulhos. O ônibus tem piso baixo, o que significa mais ou menos da altura da calçada. Porém, no ponto final, havia um carro parado no ponto de ônibus, com um motorista tranquilamente cochilando enquanto aguardava algum passageiro chegar. O motorista do ônibus não pensou duas vezes: colocou todo mundo pra descer no meio da rua, com mala e tudo.
Eu podia, é claro, ter reclamado com o motorista do ônibus. Aí eu pensei: o coitado já trabalha no trânsito de SP, não vou estressá-lo mais ainda. Vou reclamar com o verdadeiro culpado: o sujeito folgado que parou o carro em frente à placa do ponto de ônibus e foi tirar uma soneca.
Sem brigar, disse "oi, com licença, o senhor está parado no ponto de ônibus" e apontei pro pessoal descendo no meio da rua atrás de mim. Ele me olhou de alto a baixo como quem diz "quem é você". Eu insisti: "o senhor está atrapalhando, aqui é um ponto de ônibus", mostrei a placa, e fui embora pegar meu voo. Quinze segundos depois, o ponto de ônibus estava desocupado.
É o poder do constrangimento. Deveríamos tentar isso mais vezes. Às vezes, funciona.
A propósito, se não funcionar, não compre briga sozinho: pedestres e ciclistas são mesmo o lado mais fraco da corda.
Sim porque os seres humanos falham. Quando um motorista falha, quase sempre, alguém acaba ferido ou morto. Não é à toa que nos filmes futuristas, os veículos são conduzidos por um sistema automático qualquer. A presença de um ser humano ali é um risco constante.
Por outro lado, seres humanos (até mesmo motoristas) têm sentimentos tais como compaixão, medo e vergonha. E isso, de vez em quando, pode ser útil.
Ontem, eu estava desembarcando do ônibus que vai do Metrô Tatuapé ao Aeroporto de Guarulhos. O ônibus tem piso baixo, o que significa mais ou menos da altura da calçada. Porém, no ponto final, havia um carro parado no ponto de ônibus, com um motorista tranquilamente cochilando enquanto aguardava algum passageiro chegar. O motorista do ônibus não pensou duas vezes: colocou todo mundo pra descer no meio da rua, com mala e tudo.
Eu podia, é claro, ter reclamado com o motorista do ônibus. Aí eu pensei: o coitado já trabalha no trânsito de SP, não vou estressá-lo mais ainda. Vou reclamar com o verdadeiro culpado: o sujeito folgado que parou o carro em frente à placa do ponto de ônibus e foi tirar uma soneca.
Sem brigar, disse "oi, com licença, o senhor está parado no ponto de ônibus" e apontei pro pessoal descendo no meio da rua atrás de mim. Ele me olhou de alto a baixo como quem diz "quem é você". Eu insisti: "o senhor está atrapalhando, aqui é um ponto de ônibus", mostrei a placa, e fui embora pegar meu voo. Quinze segundos depois, o ponto de ônibus estava desocupado.
É o poder do constrangimento. Deveríamos tentar isso mais vezes. Às vezes, funciona.
A propósito, se não funcionar, não compre briga sozinho: pedestres e ciclistas são mesmo o lado mais fraco da corda.
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8 de janeiro de 2009
"Manda quem pode, obecede quem tem juízo"
Esse post é fruto de uma discussão na lista de e-mails do Transporte Ativo.
O Fantástico apresenta uma nova série sobre finanças pessoais: chama-se "Manda quem pode, obedece quem tem juízo". No quadro, o orçamento da família fica na mão de uma menina adolescente, sob a orientação de um especialista no assunto.
A tal família, composta de pai mecânico, mãe dona-de-casa e 3 filhas adolescentes tem uma renda mensal de R$ 2.000 e mora numa casa própria, boa mas simples, em um bairro popular do Rio. Apesar do aperto, eles têm um Fox novinho, pelo qual pagam uma prestação de R$ 691!
Como bem apontado pelo colega listeiro Alvaro Berbel, entre as dicas de economia doméstica do especialista não estava a venda do veículo. Então: será que se desfazer do carro melhoraria a situação da família? Ou eles acabariam gastando mais andando de ônibus?
O pai trabalha, mas pode ir de bicicleta, como mostrado na própria reportagem. Suponho que as filhas estudem em colégios públicos, uma vez que em nenhum momento aparecem mensalidades ou matrícula de escola e nem material escolar, e portanto não pagariam ônibus de 2ª a 6ª-feira.
Num cenário otimista, durante a semana, a mãe conseguiria cuidar de seus afazeres a pé. Uma saída de ônibus no sábado ou no domingo custaria à família 10 passagens. Como a tarifa no Rio é R$ 2,20, teríamos R$ 88 por mês. Economia: R$ 603 ou 30% do orçamento doméstico + gasolina + IPVA.
Num cenário conservador, digamos que a mãe gaste 3 passagens por dia para ir ao banco, supermercado, etc., então 21 por semana. No final de semana, digamos que eles saiam 2 vezes, que dá 4 passagens para cada pessoa, ou 20 por semana. Seriam então 180 passagens por mês. Isso dá R$ 396. Economia: R$ 295 ou 15% do orçamento doméstico + gasolina + IPVA.
Mas vamos dizer, num cenário pessimista, que todo mundo andasse de ônibus todos os dias, pagando, e alguém andasse ainda 2x por dia. Estaríamos falando de 360 passagens de ônibus por mês, ou R$ 792. Ou seja, R$ 99 a mais que a prestação do carro. Mas o carro ainda tem gasolina, manutenção (eu sei, o pai é mecânico, mas as peças não devem ser de graça) e IPVA, e no Rio, é bom ter seguro. Economia: pelo menos R$ 60 ou 3% do orçamento doméstico (sem contar as passagens que eles já gastam hoje).
Para uma família que está comprando miojo no cartão de crédito, qualquer uma das alternativas seria um alívio, não?
O Fantástico apresenta uma nova série sobre finanças pessoais: chama-se "Manda quem pode, obedece quem tem juízo". No quadro, o orçamento da família fica na mão de uma menina adolescente, sob a orientação de um especialista no assunto.
A tal família, composta de pai mecânico, mãe dona-de-casa e 3 filhas adolescentes tem uma renda mensal de R$ 2.000 e mora numa casa própria, boa mas simples, em um bairro popular do Rio. Apesar do aperto, eles têm um Fox novinho, pelo qual pagam uma prestação de R$ 691!
Como bem apontado pelo colega listeiro Alvaro Berbel, entre as dicas de economia doméstica do especialista não estava a venda do veículo. Então: será que se desfazer do carro melhoraria a situação da família? Ou eles acabariam gastando mais andando de ônibus?
O pai trabalha, mas pode ir de bicicleta, como mostrado na própria reportagem. Suponho que as filhas estudem em colégios públicos, uma vez que em nenhum momento aparecem mensalidades ou matrícula de escola e nem material escolar, e portanto não pagariam ônibus de 2ª a 6ª-feira.
Num cenário otimista, durante a semana, a mãe conseguiria cuidar de seus afazeres a pé. Uma saída de ônibus no sábado ou no domingo custaria à família 10 passagens. Como a tarifa no Rio é R$ 2,20, teríamos R$ 88 por mês. Economia: R$ 603 ou 30% do orçamento doméstico + gasolina + IPVA.
Num cenário conservador, digamos que a mãe gaste 3 passagens por dia para ir ao banco, supermercado, etc., então 21 por semana. No final de semana, digamos que eles saiam 2 vezes, que dá 4 passagens para cada pessoa, ou 20 por semana. Seriam então 180 passagens por mês. Isso dá R$ 396. Economia: R$ 295 ou 15% do orçamento doméstico + gasolina + IPVA.
Mas vamos dizer, num cenário pessimista, que todo mundo andasse de ônibus todos os dias, pagando, e alguém andasse ainda 2x por dia. Estaríamos falando de 360 passagens de ônibus por mês, ou R$ 792. Ou seja, R$ 99 a mais que a prestação do carro. Mas o carro ainda tem gasolina, manutenção (eu sei, o pai é mecânico, mas as peças não devem ser de graça) e IPVA, e no Rio, é bom ter seguro. Economia: pelo menos R$ 60 ou 3% do orçamento doméstico (sem contar as passagens que eles já gastam hoje).
Para uma família que está comprando miojo no cartão de crédito, qualquer uma das alternativas seria um alívio, não?
2 de janeiro de 2009
Feliz Ano Novo sem carro!
Nota: Precisei ficar sem escrever no blog algumas semanas, mas estou de volta.
Pela primeira vez, passei o Ano Novo em Brasília, onde moro. Normalmente, eu iria para o Rio de Janeiro.
Ir para o Rio é quase uma garantia de passar o réveillon sem carro, a não ser que você queira se aborrecer bastante. Há 3 anos atrás, resolvi ir de carro para Copacabana. Deixei minha esposa no apartamento de uns amigos e fui procurar vaga para estacionar. Tive que dirigir até o Catete (5 km) para encontrar uma. Isso porque tive sorte.
Esse ano, fomos para a Esplanada dos Ministérios. Não pela música, mas pelos fogos. O GDF previa 400 mil pessoas. É gente à beça. Na Rodoviária, tinha ônibus, é claro, vindos das cidades satélites. Mas quem mora no Plano Piloto tinha que ir a pé ou de carro. Fui a pé e em meia hora de caminhada, não vi um ônibus sequer.
O resultado foi o previsível. Milhares de carros para estacionar. O problema não foi exatamente falta de vagas -- infelizmente, a Esplanada é um grande estacionamento hoje em dia. O problema é que os motoristas, folgados como sempre, não queriam parar nas vagas mais distantes.
E aí começou o caos. Centenas de carros estacionados em cima das calçadas. Sobre os viadutos da L2, mais algumas dezenas. Outros tantos pararam nos gramados dos acessos. Teve gente estacionada até no ponto de ônibus. (Não, não é em frente ao ponto de ônibus. Foi dentro do ponto de ônibus mesmo.)
Fiquei feliz por ter ido a pé. Quer coisa pior que começar o ano já dando uma de espertinho?
Pela primeira vez, passei o Ano Novo em Brasília, onde moro. Normalmente, eu iria para o Rio de Janeiro.
Ir para o Rio é quase uma garantia de passar o réveillon sem carro, a não ser que você queira se aborrecer bastante. Há 3 anos atrás, resolvi ir de carro para Copacabana. Deixei minha esposa no apartamento de uns amigos e fui procurar vaga para estacionar. Tive que dirigir até o Catete (5 km) para encontrar uma. Isso porque tive sorte.
Esse ano, fomos para a Esplanada dos Ministérios. Não pela música, mas pelos fogos. O GDF previa 400 mil pessoas. É gente à beça. Na Rodoviária, tinha ônibus, é claro, vindos das cidades satélites. Mas quem mora no Plano Piloto tinha que ir a pé ou de carro. Fui a pé e em meia hora de caminhada, não vi um ônibus sequer.
O resultado foi o previsível. Milhares de carros para estacionar. O problema não foi exatamente falta de vagas -- infelizmente, a Esplanada é um grande estacionamento hoje em dia. O problema é que os motoristas, folgados como sempre, não queriam parar nas vagas mais distantes.
E aí começou o caos. Centenas de carros estacionados em cima das calçadas. Sobre os viadutos da L2, mais algumas dezenas. Outros tantos pararam nos gramados dos acessos. Teve gente estacionada até no ponto de ônibus. (Não, não é em frente ao ponto de ônibus. Foi dentro do ponto de ônibus mesmo.)
Fiquei feliz por ter ido a pé. Quer coisa pior que começar o ano já dando uma de espertinho?
8 de dezembro de 2008
Mais um assassino solto
Imagine um bandido com uma pistola. Ele mata 3 e fere 4 gravemente. O criminoso diz que "foi um acidente". Você deixaria uma pessoa dessas sair da prisão no mesmo dia em que entrou, levando embora sua pistola? Você acharia R$ 5.000 uma fiança justa para liberar esse sujeito?
Agora, imagine as mesmas vítimas, mas mortas e feridas por alguém dirigindo um carro em alta velocidade. E se o motorista, ainda por cima, estivesse bêbado?
Foi o que aconteceu hoje, em Cubatão-SP. O sujeito matou 3, feriu 4, pagou R$ 5.000 e saiu de lá com a carteira de motorista e tudo. Detalhe: o carro que ele dirigia era um Astra, não um Fusca.
Assim como 95% dos desastres automobilísticos, isso não merece ser chamado "acidente". É um crime e tem que ser tratado como tal.
Defendo o Estado de Direito, o direito à ampla defesa e não tenho nada contra o direito de fiança. Porém, penso:
1) Uma vez que o criminoso foi preso em flagrante, não recomendaria a prudência e o bom senso impedi-lo de cometer novos crimes ao ser solto? O CTB não deveria prever a suspensão automática do direito de dirigir nesses casos? Hoje, só após condenado pelo juiz é que o criminoso tem que devolver a CNH, e ainda assim só até passar por um curso de reciclagem.
2) Se o criminoso tem um patrimônio de no mínimo, digamos, R$ 20.000, que é o próprio Astra que ele usou para os homicídios / lesões corporais, por que estabelecer a fiança em 25% disso? A Lei não deveria estabelecer uma fiança de, no mínimo, o valor do veículo que o motorista estava dirigindo?
Agora, imagine as mesmas vítimas, mas mortas e feridas por alguém dirigindo um carro em alta velocidade. E se o motorista, ainda por cima, estivesse bêbado?
Foi o que aconteceu hoje, em Cubatão-SP. O sujeito matou 3, feriu 4, pagou R$ 5.000 e saiu de lá com a carteira de motorista e tudo. Detalhe: o carro que ele dirigia era um Astra, não um Fusca.
Assim como 95% dos desastres automobilísticos, isso não merece ser chamado "acidente". É um crime e tem que ser tratado como tal.
Defendo o Estado de Direito, o direito à ampla defesa e não tenho nada contra o direito de fiança. Porém, penso:
1) Uma vez que o criminoso foi preso em flagrante, não recomendaria a prudência e o bom senso impedi-lo de cometer novos crimes ao ser solto? O CTB não deveria prever a suspensão automática do direito de dirigir nesses casos? Hoje, só após condenado pelo juiz é que o criminoso tem que devolver a CNH, e ainda assim só até passar por um curso de reciclagem.
2) Se o criminoso tem um patrimônio de no mínimo, digamos, R$ 20.000, que é o próprio Astra que ele usou para os homicídios / lesões corporais, por que estabelecer a fiança em 25% disso? A Lei não deveria estabelecer uma fiança de, no mínimo, o valor do veículo que o motorista estava dirigindo?
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6 de dezembro de 2008
É hora de comprar?
Ontem, o presidente Lula disse que é hora de comprar. Afinal "deixando de comprar as fábricas não produzem mais automóveis e outros bens duráveis, o que pode fazer com que as montadoras de veículos promovam demissões" (grifo meu).
Duas afirmações, no mínimo, duvidosas.
Comecemos pela última. É claro que, se as fábricas não produzem, elas vão colocar gente pra fora. Porém, a indústria automobilística, que é a preocupação maior do presidente, mudou bastante nos últimos anos. O setor era intensivo em mão-de-obra, sendo quase automaticamente associado à figura do operário. Hoje, é intensivo em capital, com a maior parte das tarefas automatizada, seja por questões de segurança, qualidade ou produtividade.
As montadoras hoje empregam 113 mil pessoas. E isso ainda inclui ônibus e caminhões (mas a gente não vê o Lula falando "vamos comprar mais ônibus"). É pouca gente para o investimento dezenas de bilhões em máquinas, equipamentos, pesquisa e desenvolvimento e, claro, propaganda.
Aí tem os famosos "empregos indiretos". Ou deveríamos dizer "subempregos"? Alguém aí quer trabalhar em concessionária, oficina, estacionamento, posto de gasolina, lava-jato, ferro-velho? (Eu sei que é melhor que a fila do INSS, mas vamos pensar no custo de oportunidade...)
Ah! E "o setor gera impostos". Mas tirando todos os incentivos fiscais e para-fiscais (como empréstimos a juros camaradas no BNDES), e os custos de externalidades (poluição, congestionamentos e "acidentes"), não se justifica.
Passemos então à primeira afirmação: é hora de comprar alguma coisa? Com a renda fixa rendendo 13% ao ano, o dólar a R$ 2,50 e o IBOVESPA em 35 mil pontos, eu diria que sim. É hora de comprar títulos do Tesouro e talvez ações. Automóvel? Nem pensar.
Duas afirmações, no mínimo, duvidosas.
Comecemos pela última. É claro que, se as fábricas não produzem, elas vão colocar gente pra fora. Porém, a indústria automobilística, que é a preocupação maior do presidente, mudou bastante nos últimos anos. O setor era intensivo em mão-de-obra, sendo quase automaticamente associado à figura do operário. Hoje, é intensivo em capital, com a maior parte das tarefas automatizada, seja por questões de segurança, qualidade ou produtividade.
As montadoras hoje empregam 113 mil pessoas. E isso ainda inclui ônibus e caminhões (mas a gente não vê o Lula falando "vamos comprar mais ônibus"). É pouca gente para o investimento dezenas de bilhões em máquinas, equipamentos, pesquisa e desenvolvimento e, claro, propaganda.
Aí tem os famosos "empregos indiretos". Ou deveríamos dizer "subempregos"? Alguém aí quer trabalhar em concessionária, oficina, estacionamento, posto de gasolina, lava-jato, ferro-velho? (Eu sei que é melhor que a fila do INSS, mas vamos pensar no custo de oportunidade...)
Ah! E "o setor gera impostos". Mas tirando todos os incentivos fiscais e para-fiscais (como empréstimos a juros camaradas no BNDES), e os custos de externalidades (poluição, congestionamentos e "acidentes"), não se justifica.
Passemos então à primeira afirmação: é hora de comprar alguma coisa? Com a renda fixa rendendo 13% ao ano, o dólar a R$ 2,50 e o IBOVESPA em 35 mil pontos, eu diria que sim. É hora de comprar títulos do Tesouro e talvez ações. Automóvel? Nem pensar.
1 de dezembro de 2008
Dez dicas para fazer supermercado (sem carro, claro)
Uma das perguntas que eu mais ouço quando falo que não tenho carro é:"Como você faz com as compras de supermercado?"
Sem mais delongas, aqui vão minhas 10 dicas:
- Saiba o que e quanto comprar. Antes de sair, veja o que você já tem. Calcule seu consumo. Faça listas, mentais ou em papel: mesmo que elas não sejam seguidas à risca, dão um bom balizamento. Afinal, você não vai querer ter o trabalho de comprar e carregar coisas só para jogá-las fora depois, não é mesmo?
- Faça a maior parte das compras no supermercado mais próximo. Ter pelo menos um supermercado com acesso fácil é importante se você quer deixar de depender do automóvel.
- Se você vai a pé, em vez de fazer compras uma vez por semana ou a cada 15 dias, faça a cada 2 ou 3 dias. Menos coisas para carregar de uma vez só é um fator chave. Bônus: comidas mais frescas e mais promoções.
- Uma boa mochila é essencial. Em termos de conforto e eficiência, elas batem as sacolas plásticas de longe. Sem falar, é claro, na ecologia. Uma sacola de pano reutilizável também é uma boa idéia, para as compras menores. Uma sacola de plástico-bolha é útil para transportar itens refrigerados e congelados sem sustos.
- Uma bicicleta com bagageiro te dá duas vantagens: você tem mais supermercados para escolher, não só o da sua quadra, e você não carrega peso: é só colocar as compras na bike e pedalar. Acho que a melhor maneira de arrumar compras em um bagageiro é levar a sua mochila, encher a mochila, fechá-la e amarrá-la no bagageiro. Mesmo que você vá ao supermercado mais próximo, é melhor ir de bicicleta quando for comprar itens mais pesados (material de limpeza, por exemplo).
- Vários supermercados no Plano Piloto deixam a gente levar os carrinhos até os blocos. Se você se empolgar ou precisar comprar mais do que dá pra carregar, essa é uma ótima solução.
- Às vezes, não tem outro jeito a não ser fazer compras de ônibus. Quando eu morei em Águas Claras, o único supermercado que existia ficava do outro lado da cidade. Valem os mesmos cuidados das compras a pé: levar mochila e não se empolgar na quantidade. Como não dá para ir ao supermercado com tanta frequência, o planejamento correto das compras é de extrema importância. Além disso, vá fora dos horários de pico do sistema de transporte: ninguém merece andar num ônibus cheio com uma mochila cheia.
- Menos volume, menos peso = mais eficiência! Os itens mais pesados das compras, em geral, são aqueles onde a gente está transportando... água! Não precisamos fazer isso, já existe um elaborado sistema da CAESB para fazer chegar água potável às nossas casas. Portanto compre: leite em pó em vez de leite em caixas; chá em pó em vez de chá em garrafas; suco concentrado em vez de suco pronto; desinfetante concentrado em vez de diluído; e assim vai.
- Faça compras pela Internet: se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. Minhas experiências até hoje foram muito positivas. Os supermercados foram sempre cuidadosos em escolher as melhores frutas e verduras. Os frios e congelados vêm em embalagens apropriadas. E você recebe tudo no conforto da sua casa, no horário marcado. Ah, sim: quando eu fico com pena de pagar R$ 9 de taxa de entrega, eu me lembro dos R$ 900 por mês que custava meu carro.
- Se não der pra fazer nada disso (tipo: você precisa comprar 50 litros de refrigerante para uma festa de aniversário), bata no ombro da sua mãe, sogra, cunhado ou melhor amigo, explique a situação e peça uma carona ou o carro emprestado por algumas horas. Se todos recusarem, chame um táxi. Obviamente, esse é um último recurso: não abuse!
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19 de novembro de 2008
Não existe almoço grátis, mas estacionamento grátis...
Circula pela Internet uma mensagem que diz, em resumo, o seguinte:
Lei Gratuidade de Estacionamento - Lei nº 1209/2004-DF
Se você gastar 10 vezes o valor do estacionamento no shopping, o estacionamento tem que ser gratuito.
Aparentemente, a lei existe, mas há uma liminar do STJ que suspende seus efeitos. Felizmente.
Afinal, por que o Governo deveria regular o preço de uma transação estritamente privada entre o dono do automóvel e o administrador do estacionamento? Há alguma falha de mercado que justifique a interferência estatal?
O que tem a ver o administrador do estacionamento -- que via de regra não é a mesma empresa que administra o shopping, e tenho certeza de que não é a mesma loja que vende para o cliente -- com o fato de que alguém comprou zero, 3x ou 10x o valor do estacionamento?
As lojas têm todo direito de isentar o cliente de seu estacionamento, como algumas de fato fazem. E a administração do shopping também pode estabelecer essa política, se for de sua preferência. Não entendo qual a motivação da Lei, a não ser o "populismo de elite".
Se o consumidor for ao shopping de metrô, ônibus, táxi, bicicleta ou a pé, como fica o desconto? Por que oferecer desconto apenas ao sujeito que já tem renda suficiente para andar de carro e fazer uma compra de mais de R$ 40 ou R$ 45 em um dia?
Lei Gratuidade de Estacionamento - Lei nº 1209/2004-DF
Se você gastar 10 vezes o valor do estacionamento no shopping, o estacionamento tem que ser gratuito.
Aparentemente, a lei existe, mas há uma liminar do STJ que suspende seus efeitos. Felizmente.
Afinal, por que o Governo deveria regular o preço de uma transação estritamente privada entre o dono do automóvel e o administrador do estacionamento? Há alguma falha de mercado que justifique a interferência estatal?
O que tem a ver o administrador do estacionamento -- que via de regra não é a mesma empresa que administra o shopping, e tenho certeza de que não é a mesma loja que vende para o cliente -- com o fato de que alguém comprou zero, 3x ou 10x o valor do estacionamento?
As lojas têm todo direito de isentar o cliente de seu estacionamento, como algumas de fato fazem. E a administração do shopping também pode estabelecer essa política, se for de sua preferência. Não entendo qual a motivação da Lei, a não ser o "populismo de elite".
Se o consumidor for ao shopping de metrô, ônibus, táxi, bicicleta ou a pé, como fica o desconto? Por que oferecer desconto apenas ao sujeito que já tem renda suficiente para andar de carro e fazer uma compra de mais de R$ 40 ou R$ 45 em um dia?
11 de novembro de 2008
Propaganda de motos dentro do ônibus (!)
Outro dia eu estava no ônibus aqui em Brasília quando vejo, na parte traseira interna, um anúncio dizendo: "Compre sua moto em 48x".
Essa pra mim é novidade. Eu queria saber em que outro ramo de negócios o empresário faz ou deixa que façam propaganda de seu concorrente.
Em todo lugar são comuns busdoors com propagandas de automóveis ou serviços relacionados. Aparentemente, o público-alvo disso não são os usuários do transporte coletivo, mas os motoristas presos no congestionamento. O que é questionável, já que quem está no ponto de ônibus também fica exposto aos anúncios enquanto espera sua linha, mas tudo bem.
Agora, "compre uma moto" dentro do ônibus é no mínimo um contra-senso. Mesmo porque o valor das parcelas acaba sendo tentador para quem paga R$ 6,00 por dia para se deslocar.
Essa pra mim é novidade. Eu queria saber em que outro ramo de negócios o empresário faz ou deixa que façam propaganda de seu concorrente.
Em todo lugar são comuns busdoors com propagandas de automóveis ou serviços relacionados. Aparentemente, o público-alvo disso não são os usuários do transporte coletivo, mas os motoristas presos no congestionamento. O que é questionável, já que quem está no ponto de ônibus também fica exposto aos anúncios enquanto espera sua linha, mas tudo bem.
Agora, "compre uma moto" dentro do ônibus é no mínimo um contra-senso. Mesmo porque o valor das parcelas acaba sendo tentador para quem paga R$ 6,00 por dia para se deslocar.
4 de novembro de 2008
SP: Trem do Aeroporto voltará -- por R$ 28!
Prefeitura, Governo do Estado e União estão juntando esforços para que o Trem do Aeroporto saia do papel.
A passagem custará o mesmo preço do ônibus executivo -- R$ 28. Ou seja, assim como o ônibus, ele será feito para que não conhece o sistema de transporte da cidade.
Alguns deve estar se perguntando: Trem do Aeroporto voltará? Quando foi que ele existiu um dia?
É chocante, mas um dia já houve trilhos saindo do Parque Pedro II até as proximidades do Aeroporto de Guarulhos -- que era, então, apenas uma Base Aérea militar.
Como o Brasil é um país sem visão de futuro, em 1965 o Regime Militar resolveu "erradicar" ramais ferroviários como se eles fossem algum tipo de doença. Foi aí que essa linha -- que se chamava Trem da Cantareira -- virou asfalto.
Tanto o transporte ferroviário era necessário na região que uma década mais tarde foi reconstruído um trecho da linha -- entre Luz e Tucuruvi -- mas dessa vez no subsolo. E hoje, 40 anos depois, fala-se em fazer estação em Guarulhos, para ligar ao Brás e aí à Luz.
Para quem quiser saber mais dessa história, visite a página da estação original que ainda está lá, dentro da Base Aérea.
Em tempo, com R$ 28 alguém pagaria 37 passagens desse trem -- em dinheiro de hoje, a tarifa custava R$ 0,75.
A passagem custará o mesmo preço do ônibus executivo -- R$ 28. Ou seja, assim como o ônibus, ele será feito para que não conhece o sistema de transporte da cidade.
Alguns deve estar se perguntando: Trem do Aeroporto voltará? Quando foi que ele existiu um dia?
É chocante, mas um dia já houve trilhos saindo do Parque Pedro II até as proximidades do Aeroporto de Guarulhos -- que era, então, apenas uma Base Aérea militar.
Como o Brasil é um país sem visão de futuro, em 1965 o Regime Militar resolveu "erradicar" ramais ferroviários como se eles fossem algum tipo de doença. Foi aí que essa linha -- que se chamava Trem da Cantareira -- virou asfalto.
Tanto o transporte ferroviário era necessário na região que uma década mais tarde foi reconstruído um trecho da linha -- entre Luz e Tucuruvi -- mas dessa vez no subsolo. E hoje, 40 anos depois, fala-se em fazer estação em Guarulhos, para ligar ao Brás e aí à Luz.
Para quem quiser saber mais dessa história, visite a página da estação original que ainda está lá, dentro da Base Aérea.
Em tempo, com R$ 28 alguém pagaria 37 passagens desse trem -- em dinheiro de hoje, a tarifa custava R$ 0,75.
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