4 de agosto de 2009

"Como comprar um carro sem gastar um centavo a mais no orçamento"

Recentemente, uma das maiores montadoras brasileiras lançou uma campanha de vendas cujo mote está no título acima. A propaganda na televisão mostra uma pessoa tomando banho quente e diz que com "pequenas medidas" dá para economizar o suficiente para levar um carro para casa.

Será verdade? Vejamos. O carro mais barato dessa marca custa hoje pouco mais de R$ 24.000. Começamos a fazer algumas contas:
1) supondo compra à vista, mês passado esse dinheiro rendia na poupança R$ 132 (se for a prazo, como sug
ere a propaganda, os juros são bem maiores);
2) o seguro desse carro vai ser cerca de R$ 2.592 por ano, ou seja R$ 216 mensais (assumir o risco de batida ou roubo, economicamente falando, é quase o mesmo que pagar seguro);
3) como carros não duram para sempre, quem quiser depois de 4 anos comprar outro igual vai ter que juntar, desde já, 25% desse valor, ou R$ 125 por mês (a conta aumenta para trocar mais cedo, por exemplo, para trocar com 2 anos, R$ 180);
4) o IPVA desse carro sairá cerca de R$ 720 por ano, ou R$ 60 mensais.

Então, o carro mais barato da propaganda, só para ficar parado na rua em frente à sua casa, vai lhe custar R$ 533 por mês. E você ainda vai colocar gasolina, óleo, pneus, revisões, estacionamento e tudo mais que um carro precisa. Mas como transporte público não é de graça também, vamos esquecer essa parte.

A grande maioria das pessoas não chamaria um corte de R$ 533 no orçamento de "pequena economia". A última Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE* revela itens que estão acima desse valor, mesmo para famílias com rendimento acima de R$ 6.000, são coisas onde é difícil fazer muita economia: aluguel, supermercado, plano de saúde e educação. A eletricidade, que aparece na propaganda, custa 1/4 desse valor em média.

Aplica-se melhor a esse caso o famoso mote do cartão de crédito: quem compra automóvel é porque acha que o conforto que ele oferece "não tem preço". Mas que não reste dúvida de que a mordida no orçamento será considerável. Dizer o contrário é, simplesmente, faltar com a verdade.

* A pesquisa é de 2003, mas corrigi os valores originais pelo IPCA com auxílio dos dados deste site.

3 comentários:

Rodrigo disse...

Acabei de renovar meu seguro por R$1200. Resolvi dar uma chance à "comodidade", mas sei que não vale a pena, pois dos R$600 mensais que o carro me custa (incluindo aquisição, troca em 6 anos, seguro, IPVA, manutenção e combustível), gasto somente entre 15% e 25% do total com combustível, o que indica que eu tô vacilando muito, pois com R$600 eu atenderia minha pequena demanda extra (já vou trabalhar de bike) tranquilamente com transporte público, um pouco mais de bicicleta e até taxi. Parabéns pelo blog e pela proatividade!

sergio azevedo disse...

Também abdiquei do carro há cerca de 8 meses, desde que voltei a morar em BsB, depois de um ano fora.

Pensando nesta opção, procurei alugar um canto na asa norte, próximo`a W3N. Moro a 100m de um ponto de táxi e do ponto de ônibus 707N.

Direto ao ponto: gasto cerca de r$500 dinheiros por mês com deslocamentos. Ando de táxi (30% desc) quase diariamente e combinações com Ónibus/ Metrô / Bike dobrável / a pé.

Antes com carro eu gastava entre $300 e 400$ apenas com gasolina. Nem vou somar a esta conta os dados já bem demonstrados pelo caro Rodrigo.

O fato é que sem o carro gasto muito menos (mesmo morando em Brasília, o lugar mais inóspito para pedestres que conheço...)

Morar sem carro em Brasíla não é impraticável, apesar do péssimo serviço de transporte e tráfego hostil. Depende de uma mudança de estilo de vida, um campo muito mais "complicado".

Seu BLOG é excelente. Parabéns pela iniciativa. Espero poder colaborar com experiências numa próxima.

Marlon disse...

Seu Blog é muito show!

Tb concordo que comprar carro, com essa avalanche de gastos e impostos, tá muito errado. Tb sei o quanto é dificil encarar um onibus por essa Brasília, mas eu prefiro ainda o transporte público, pois é menos dor de cabeça...